Pepito: coração enorme e alma de artista
Pepe Legal, pra mim, não é só um desenho animado das antigas; de um tempo em que ainda parecia possível curtir um pouco de inocência no mundo.
Para alguns de nós que trabalhamos na comunicação do INPE, lá pelos idos do início dos anos 90, Pepe Legal é também o apelido de Jose Dominguez Sanz. Apelido dado pela Cássia Müller, na época, estudante de publicidade e monitora no Centro de Visitantes do Instituto.
O codinome pelo qual ele era mais conhecido, na verdade, é Pepito. Mas ele assinava trabalhos de arte ultimamente como Pepittoo e fazia questão dessas letras duplicadas. Não tive oportunidade de pedir a explicação para isso.
Acredito que como ser humano somos únicos, mas multifacetados, nos adaptando com características específicas às necessidades de cada ambiente nos quais circulamos. Assim, penso que o Pepe que conhecemos, naquele momento, naquele local, pode ser diferente do Pepito que se relacionava em outros círculos, mas duvido que alguém não concorde que ele era um camarada muito legal.
Cada amigo que parte leva um pedaço da gente
E, agora diante dessa tragédia que expõe toda nossa fragilidade humana, é aqui, nessa ‘second life’ virtual que temos nos despedido de tantas pessoas especiais.
Aí vai uma de minhas histórias. Quando entrei na assessoria de imprensa do INPE, substituindo a jornalista Fabíola de Oliveira, que se afastava para conclusão do Mestrado em Jornalismo Científico, enfrentei alguns problemas de adaptação à equipe. Acontece.
Pepito – juntamente com o Carlinhos Vieira, com quem tocava o setor de artes gráficas do Instituto – foi um apoio importante. Me incentivando a não desistir e ajudando a entender o ambiente um tantinho fechado dos servidores do INPE. Tudo foi superado e trago comigo, até hoje, muitos amigos preciosos de lá.
Foi também com essa dupla, Pepito e Carlinhos, que essa matuta de São José dos Campos se aventurou pela primeira vez em Brasília. Fomos fazer uma exposição do Instituto em um evento por lá.
E foi muito bom poder contar com o apoio deles para desbravar aquelas esteiras rolantes que ligam os anexos, os restaurantes um pouco mais requintados do que os que conhecia até então, os salões verde e branco e não me perder naquela imensidão arquitetônica e linda, que merecia ocupantes melhores. Ainda sobrou um tempinho para visitar a catedral e almoçar em um restaurante onde conheci o baião de dois, prato que, na ocasião, fazia sucesso em Brasília; hoje não sei.
O tempo afasta, o tempo aproxima
Eu não era concursada no INPE, mas subcontratada por uma fundação e os dois anos lá passaram rápido. Segui com a vida e ela nos leva para outras histórias e outros amigos. Mas, de vez em quando, traz de volta alguns.
Retomei o contato com o Pepito apenas em maio deste ano. Quando ele leu um texto meu, deste blog. Elogiou o trabalho e se dispôs a colaborar com suas fotos e artes.
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| Ponte estaiada em São José dos Campos – SP, com interferência artística por Pepittoo |
Contei pra ele que Cássia também contribuía como blog, de vez em quando. Pepito se mostrou feliz em ter notícias dela – que mora hoje na Suíça – e quando eu lembrei do apelido Pepe Legal, ficou emocionado e disse que era uma lembrança importante, pois andava “muito machucado com esse pandemônio” referindo-se ao coronavírus.
Semanas atrás, postou uma imagem do Pepe Legal na sua time line do Facebook.
Coração enorme, alma de artista com pinceladas de anarquista. Voz grave e gestos expansivos para se comunicar, como manda o figurino da descendência espanhola.
Um inconformado permanente com injustiças, com o cerceamento da liberdade, com a falta de atenção às coisas belas e de respeito entre as pessoas.
Quando a gente fala de um amigo, já com saudade, o texto pode não ter fim. Fica aqui então as últimas mensagens que me enviou quando se propôs a me ajudar com o blog:
– Conta comigo
– Precisar tô qui… Bj
Valeu, Pepe. Estamos aqui também. Pra continuar resistindo e se opondo a tudo que entristece a alma.



