A guerra distante de nós

Casa em escombros, com um gatinho no centro da foto.
Photo by Alex Fedorenko on Unsplash

A propriedade, o poder, o ego, a ganância. O dinheiro das armas, a política ardilosa, os acordos espúrios. São várias as explicações para uma guerra. Nenhuma delas, porém, atende ao desejo de uma criança de dormir serena. Ao sonho das mães, de que elas tenham futuro. Que lhes deem netos. Ao desejo do pai que a casa seja segura, e o alimento seja, pelo menos, suficiente.

Não supre a necessidade daqueles que sonham que o amor seja livre, abundante e generoso.

A guerra é a arte dos demônios internos atuando nos homens que alimentaram em si mesmo a escuridão.
Transforma os lares, que antes abrigavam sorrisos e gritos infantis de alegria, em escombros cinzentos sob os quais jazem soterradas quaisquer esperança de felicidade.

A guerra entre o bem e o mal se desenrola todos os dias, em algum lugar. Nos morros disputados por milícias e rivais no tráfico, nos gabinetes do alto escalão dos países grandes e pequenos, naquele país distante, o qual mal conseguimos pronunciar o nome.

A guerra pinta suas telas horrendas, com a mesma naturalidade com que estendemos as roupas no varal, colocamos a mesa, revisamos uma planilha, beijamos o filho na porta da escola, levamos o cachorro a passear ou compramos um novo perfume. Tranquilos. Alheios às dores de quem está distante. Distante é tão longe que não parece real.

Até, quem sabe, um dia qualquer, os demônios da escuridão voltem seus olhos para nós e um míssel flamejante desça dos céus transformando também em escombros nossas rotinas confortáveis. Deixando o piano sem música, os sapatos sem dono, a toalha de mesa coberta de entulhos, o bicho de estimação sem rumo. Então, seremos nós os distantes.

E, talvez, entendamos enfim que somos uma só humanidade. Mas será tarde. Já não teremos voz que alcance os distantes que estendem a roupa, assinam o documento, colocam a mesa, reclamam do calor ou do frio, compram o perfume, beijam o filho na porta da escola.

Mulher grisalha, usando óculos.
Maria D'Arc é jornalista e escritora 


 

Postar um comentário

0 Comentários