Crônicas de despedida: os pirilampos
Há vários anos eu sequer pensava neles. Apesar de ter vivido a primeira infância em locais onde eles eram comuns, o prazer de observá-los foi ficando para trás, perdido na bruma das ocupações do mundo adulto. E, assim, não me dei conta que eles não são mais fáceis de encontrar.
A culpa disso, obviamente, é dos humanos. Os vagalumes, ou pirilampos, levaram muito tempo em seu processo evolutivo desenvolvendo a capacidade de brilhar no escuro para poder encontrar uma parceira e procriar.
Eis que vieram as pessoas e desenvolveram as luzes artificiais para que pudessem continuar trabalhando e se divertindo também à noite. Na claridade, as lanternas dos bichinhos não têm o resultado necessário de atrair uma fêmea.
Foi na chácara do meu tio Joel, na divisa de Redenção da Serra com Paraibuna. Meu filho tinha dois anos. Como acontece com os pais quando surge a oportunidade de partilhar algo com seus rebentos, fiquei eufórica quando vi a encosta na frente da casa coalhada de vagalumes, logo ao anoitecer. Pareciam estrelas bailarinas ao alcance de nossas mãos.
Ficamos lá, eu, meu marido e meu filho sentados observando aquele show de luzes.
Daquele instante pra cá, muitas despedidas ocorreram. Meu tio Joel, por exemplo, já partiu em sua última viagem há alguns anos e nunca mais voltamos à chácara.
Mas a visão da encosta cintilante ficou guardada em algum lugar da minha memória e foi resgatada quando vi aquele único vagalume acima dos arbustos, vagando sozinho, acendendo e apagando, perdido lá nos fundos de um condomínio, em Caraguatatuba, onde ainda existe terrenos e um pouquinho de escuridão.
O que eu estava fazendo lá no escuro? Supervisionando a finalização do trabalho de um eletricista que cuidava da instalação de mais cabos elétricos e da reativação de luminárias.


