Qual número de mortes é aceitável para você?
Eu nunca me conformei com a frieza dos números estatísticos quando o assunto é perda de vidas. Claro que eu entendo, racionalmente, que a morte faz parte do ciclo de existência que chamamos de vida. Mas, meu coração é um estúpido sem racionalidade alguma. E, para ele, não existe um número de mortes aceitável e justificável que possa se sujeitar à frieza da matemática.
Eu cobria bastante a área de saúde, trabalhando no caderno regional da Folha de S.Paulo, e fui entrevistar um médico da vigilância epidemiológica.
Muito atencioso e paciente com a repórter novata, ele me mostrou tabelas, gráficos e falou bastante para explicar que o número de crianças mortas, estava dentro de uma taxa aceitável para a letalidade dessa doença, portanto, não havia motivo para grande preocupação. Tudo estava sob controle.
Voltei para a redação e escrevi meu texto, informativo, relatando os fatos, mas, internamente, inconformada ao pensar que aquelas 4 crianças não eram apenas números para seus pais. Que essas perdas, consideradas aceitáveis, com certeza haviam destruído o mundo de várias pessoas.
Quase 30 anos depois dessa experiência, sigo inconformada com muita coisa e o número de 406 mil mortes, hoje, por Covid-19 no Brasil, não cabe na minha cabeça. Seria esse um número estatisticamente aceitável? Para quem?
Vamos falar de números, embora eu não goste muito deles
Com 37,59 milhões de habitantes, o Canadá registrou até o final de abril 1,23 milhões de casos de Covid-19. Isso representa 3,2% da população. Tendo descoberto o primeiro caso em 25 de janeiro de 2020, o país somou até o último mês de abril 24.257 mortes.
O primeiro caso oficial no Brasil foi no final de fevereiro de 2020. Desde então, o país registrou 14,7 milhões de casos, ou 6,9% da população de 213 milhões de pessoas. Cerca de três meses depois do primeiro registro oficial de caso, no final de maio de 2020, 24.111 óbitos já eram contabilizados.
A comparação com o Canadá foi feita, porque, há um ano, em 2 de maio, publiquei o primeiro texto, aqui no blog, sobre coronavírus e o isolamento social e uma das histórias que contamos foi sobre a experiência da Fernanda Akemi Shimada com as restrições naquele país para contenção do vírus. No próximo post vamos contar como foi o ano dela, em Toronto.
No Brasil, estávamos perto das 7 mil mortes. Número que foi multiplicado por 3 em menos de 30 dias e daí em diante, seguimos em uma progressão geométrica crescente e macabra.
Progressão irresponsável que trouxe o país, hoje, à marca de 406 mil mortes. É quase impossível encontrar alguém que não tenha perdido um parente ou amigo para a Covid-19.
Enquanto isso, no país do faz de conta…
Enquanto isso, no país do faz de conta que a doença não existe, a imprensa segue noticiando falta de insumos para vacinas (yes, nós temos vacinas, ou poderíamos ter); falta de oxigênio em hospitais, falta de vagas em UTIs, falta de alimento nas mesas dos mais pobres…
Enquanto isso, no país do faz de conta que a doença não existe, os políticos formam CPIs para investigar e, quem sabe um dia, concluir se houve erro por parte do Executivo no combate à crise sanitária que assola o país. Será?
Será que algo mais poderia ter sido feito para conter o avanço implacável da pandemia?
406.000 não é só um número. Esses algarismos tentam conter na frieza da estatística a tristeza de milhões de vidas destruídas.
Enquanto a CPI ensaia os primeiros passos, com seus discursos da velha política – ou de políticos velhos – pensando em reeleições e o governo se dedica ao combate dos dragões que a investigação pode chocar no seu quintal, a morte avança produzindo fantasmas vivos, como os órfãos da covid-19, que já assombram as entidades que atendem crianças e adolescentes.
O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta a existência de 45 mil órfãos em razão da Covid. Número que deve crescer e vai pressionar um sistema de atendimento já distante do ideal. Evasão escolar, violência doméstica, trabalho e prostituição infantil são outras questões que podem tomar um vulto ainda mais assustador para essa população de desvalidos.
“Crianças e adolescentes não são as principais vítimas diretas da pandemia, não são as principais a morrer em razão da letalidade do vírus, mas são as principais vítimas indiretas da crise econômica, social, sanitária e humanitária, da suspensão das aulas, das creches. São as principais vítimas no que diz respeito à morte dos seus pais, avós e responsáveis legais”
São as palavras do advogado do Instituto Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, Ariel Alves, em matéria publicada no site da Agência Brasil. O texto completo pode ser lido aqui.
Nem vamos falar dos idosos mortos de Covid, cujas rendas eram arrimo de família, porque o texto precisa ter fim. Você, que leu até aqui, já percebeu quantas vidas são afetadas por uma estatística ‘simples’ de números de mortos?
Esqueça o sonho de que a vida vai voltar ao normal. Não existe normal, novo ou velho, no horizonte visível. O que existe pela frente, a continuar dessa forma, é a miséria infinita. As ruas cada vez mais cheias de pessoas abandonadas à própria sorte, sem que tenham recebido preparo sócio educacional para que sequer percebam porque estão naquela situação. Serão apenas uma massa disforme de pessoas sem rosto, transformadas em estatísticas nefastas.
E você?


